Cova rasa

Diz que o São João é dia bom para podar as rosas. De um jeito, pensa, foi o que se deu. Fitando o céu limpo daquela tarde, arregaça as mangas da camisa velha, gira a maçaneta e pisa descalça a grama do jardim. Tesoura em mãos, guilhotinou primeiro as vermelhas, as mais numerosas naquele ano, e que foram caindo umas por sobre as outras, numa despetalada poça a seus pés. Delas passou às demais, cobrindo parte do chão verde.

Contornou o muro baixo derrubando os galhos que precisavam sair, dar lugar a brotos novos. Providências imediatas. Amolara as lâminas antes de deixar a penumbra da cozinha; passava a pedra pelo fio uma duas três vezes, outro lado uma duas três vezes. Ao completar o caminho das roseiras vistoriou os pés de camélias às vésperas de desabrochar, os arbustos de azaleias muito vivas e hortênsias descoradas; adiante notou a trilha que levava folhas cortadas em pequenas frações para debaixo da terra. Voltou-se então e olhou a casa; soube que lá dentro já existia muito menos do que pela manhã, como se as paredes diminuíssem ou se apagassem de algo.

Antes de o escuro terminar de descer, enquanto se tingiam as bordas da abóbada do céu, recolheu as hastes coalhadas de espinhos como criança que junta conchas na areia. Mãos cheias, sentou sobre os calcanhares, deixou espetar-se a pele dos dedos desprotegidos, dobrou o pescoço voltando os olhos para a noite sem nuvem. Gostava quando a lua fica fininha, como estava, um sorriso boiando no azul fundo quase breu e teve saudade. Uma falta que puxava perpendicularmente para o meio do mundo, colando pernas e costas e braços ao solo familiar e ali ficou, ali dormiu, sem notar que cerrava os olhos e abria o peito vazio.

Uma casa vazia. O calçamento partido onde a vegetação rasteira busca luz; as vidraças fechadas, invisível empecilho ao ingresso do frescor transparente da nova manhã, antes de o sol subir; a quaresmeira do jardim da frente a perecer, imóvel contra o ataque das formigas carregadeiras. O coração depois de se partir ele é uma casa vazia. Mas, ah, as dálias no fundo do quintal.

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O primo mais velho de Sobral

O mundo me apresentou Bel, por vias tortas, lá na pré-adolescência. Foi por meio duns gaúchos: no Minuano, dos Engenheiros do Hawaii. Era 1997, eu tinha onze ou já doze anos. Afirmação honesta, não recordo como aquela fita k7 pirateada me parou nas mãos, mas ela me acompanhou, no amado walkman da Aiwa, numa viagem no Voyage verde da família até a Serra Gaúcha. Não restou também – confesso -, recordação alguma das conversas e interações com mãe, pai ou a irmã no trajeto entre cidades; lembro apenas de, com os fones nos ouvidos, escutar pela primeira vez alguém dizer que não estava interessado em nenhuma teoria, nenhuma fantasia, nem no algo mais. Enquanto assistia a paisagem pela janela do carro eu ouvia aquela letra e sentia um estranhamento, como se aquela música fosse uma peça grande demais para o quebra-cabeça que compunha. Não preciso dizer que é a única faixa que me restou na memória.

Deve ter sido a fase em que comecei a prestar atenção, de fato, ao que me chegava aos ouvidos acompanhado de melodia, pois pouco adiante, na mesma época, descobri as classiconas Como nossos pais e Velha roupa colorida na voz da Elis. Daquelas circunstâncias raras em que algo atinge você bem no centro, onde importa. Não poderia ser diferente, esse momento “educação para Belchior” logo acabou e fui beber na fonte, mesmo com as dificuldades da internet precária e levando algumas sortes trocando de rádios. De uma maneira meu mundo mudou. Aquele sobralense abriu caminho para muito do que já me havia sido apresentado, mas que ainda não tinha alcançado naquela menina curitibana: Caetano, Chico, a própria Elis, Bethânia…. Na esteira vieram Ney Matogrosso e seus Secos e Molhados, Milton, Novos Baianos, tanto mais daqueles que tem significado até hoje, que tem mais significado hoje, tipo aquele livro que cresce junto com você quando relido.

Bel é quase família na minha cabeça, por isso toda a intimidade no trato. Ele me fez crescer. Fiquei triste de verdade quando ele morreu, era uma manhã de domingo em 2017. Quando soube lembrei do verso que ecoa em mim tem vinte e um anos, aquele grito de resistência de quem diz que amar e mudar as coisas lhe interessa mais. Guardo a frase junto com outros conselhos do bigodudo, de que o passado é roupa que não serve mais e a sentir tudo na ferida viva do meu coração.

Areal

Amor matado é uma vila abandonada às pressas ressurgida depois do apetite das dunas. Passado encoberto pelos grãos do tempo não deixa de existir. O vento carrega montanhas de lugar, carrega a mim e eu me movo. Arrasto os pés pelo areal, sinto afundar, meu caminhar violentando o chão instável que se afasta.

Ainda tem muita areia depositada nos ângulos dos cômodos meio esvaziados, presa na trama d’alguma fazenda deixada atrás, nas frestas do piso mal rejuntado do banheiro, misturada aos cacos da vidraça que cedeu ao peso acumulado de grão mais grão mais grão. Não é tão diferente agora, só eu que tenho rugas em torno dos olhos por forçar demasiado a vista para enxergar o que não havia.

Quando fui-me embora era tudo visível e banhado de sol, as tábuas desbotadas na face mais iluminada, tudo gasto, desfazendo-se sem morrer. Quem diria, eis-me aqui: ando em círculo redescobrindo o que sobrou da passagem da areia, que varreu tudo, cobriu tudo, desnudou tudo e se foi, apagando as pegadas e refazendo o redondo movimento do mundo.
Vida deixada é reconhecível na distância do tempo, mas nunca igual, algo como sonho ruim, memória inventada, livro de cabeceira, a depender de onde se olha.

Num lugar desse, mesmo tivesse sido poupado pela areia, era de se esperar não ter chegado a luz elétrica e a do dia se vai, se vão o calor e a forma das coisas. Tateio o espaço aberto e me abandono ao vento que não cessa, sigo adiante, outra cidade fantasma qualquer.

Breve texto para quem morre

Acontece que me doem os adeuses. Doem-me como coisa teimosa qualquer a querer arrebentar as carnes de dentro, buscando caminho fora para também deixar de ser. Um adeus é um apagamento.

Em meio a ele eu conto o tempo tal qual apenado que faz nas paredes do cárcere a conta dos dias. Quanto tempo já passou, quanto dele ainda resta. Quanto se foi e o que levou consigo. Quanto sobra e o que faço eu de mim e das futuras cicatrizes. Esse estranho condão de pensar na vida que tem a morte.

A vida tem dentes e morde, abocanha nacos de nós a cada vez. A mandíbula pesada não dá recado, cachorro que ladra, sabe como é. Acontece que eu tenho saudade dela. É ainda agora aquela saudade que me maltrata um bocado, aquela de pensar no fim, na falta de solução, nos traços duros do mundo sobre o qual eu posso nada. Mas a água dos dias se encarrega de diluir as tintas da dor; as paisagens lavam-se em contornos fluídos, colorações pastéis, e é um existir menos violento e eu esqueço.

Esqueço do que foi, lembro do que ficou e de mais um punhado de coisas, como as que ela falou ao longo dos anos e que eu ouvi ou das que me fizeram chegar aos ouvidos. Ultimamente eu me lembro mais é de que planta que não derruba folha, ela não cresce. É aqui (e só aqui) que eu não fico culpada quando me sinto despetalar contra a tormenta de mim. As tantas coisas que eu queria fazer. As que eu não vou mais poder. As chances deixadas atrás, as pessoas que eu quis ser, as frases que eu não escrevi, as cartas que eu não mandei, os amores que eu não vivi, todos os possíveis clichês e a fantasia de que tudo resultaria em outra de mim, sempre melhor.

Melhor, melhor que eu, melhor que ontem. Acontece que hoje eu desisti de tudo. De escrever, de ler, de dormir, de dar certo. E a noite mal começou. Fora, os carros são mais raros a essa hora. As sirenes se fazem ouvir quanto mais se emudece a vida, gente que morre.

Bem vinda, avança por sobre mim a madrugada como coisa física qualquer, coisa feita da matéria mesma que nós. Nós que atam(os) silêncios ao pé da cama, atrás da porta. E é tão quieto aqui. Aqui, e quieto o bicho que agora dorme em mim, a espera de me devorar os passos em falso, a caminho do infalível breu.

Então eu componho (ou, não-reportagem sobre Waltel Branco a partir de uma produção)

Das mãos de Waltel, em 01 de junho de 2017

É maio, quase junho, e em Curitiba faz frio. Dentro de uma blusa de lã, puída e verde, fechada a zíper, o maestro escreve. Disse-me, trabalhava em uma nova obra e me alcançou algumas tantas folhas dobradas. Era um convite que (soube eu depois) nasceu de sonho. Impresso ali estava o conteúdo de um email com a proposta feita pela poeta, tradutora e escritora Josely Vianna Baptista: criar música.

Waltel Branco, 87, me contou do que fazia como quem diz que vai à feira, “eu passo compondo; fico cá o dia todo, não tenho o que fazer eu componho” e então me disse da novidade. Depois, remexendo os pertences por cima das superfícies, colocou em minhas mãos outro papel. No topo de uma página apenas semipreenchida, onde se acumulariam nos dias seguintes outras linhas musicais, destacava-se o nome que se me apresentara poucos minutos antes, ‘Nada está fora do lugar’*.

Nascido em Paranaguá em 1929, consagrado pelo arranjo de álbuns e trilhas sonoras que moram no imaginário de gerações, Waltel será ouvido noutra cidade litorânea em dia de festa, na 15ª edição da Flip, em Paraty. O chamado feito por Josely, abraçado pelo maestro, foi para compor a face sonora de um vídeo-poema a ser exibido durante o evento. Um vídeo-poema costurado a muitas mãos, num mutirão criativo, conforme me escreveu a própria artista. Mutirão, potyrõ, de la lengua guarani “todas as mãos”.

Escreveu mais a poetisa, em resposta às minhas investidas abelhudas de repórter: “Waltel Branco participa de nosso vídeo com seu talento múltiplo. Como quem procura uma nova harmonia e percebe que tudo está em trânsito, ele imprime um ritmo encantatório à trilha sonora ao entrelaçar suas próprias composições com algumas músicas guarani e também com sons incidentais da natureza. A presença do Waltel ilumina nosso potyrõ caleidoscópico, e dá ao trabalho uma espécie de redenção, uma esperança difusa”.

“É assim que começa”, disse-me o maestro mostrando a protofonia. No ânimo da sua voz eu tateava um combustível ancestral e alguma vida bailando acima das nossas cabeças. Explicou que era ligeiro e que depois de ler o poema já sabia, “como ela tá fazendo sobre os guarani tem que ser mesmo coisa nossa: o fandango, as modinhas nossas”, depois engatou a falar sobre Villa-Lobos, então Carlos Gomes e seu outro Guarani, aquele que era do mundo.

Algo ancestral. Ainda nas linhas que generosamente redigiu em resposta às minhas questões, a artista mencionou um poema (Moradas nômades) e a tradição guarani da reciprocidade. Dela eu reproduzo: “um ancião da aldeia Ocoí, Paraná, conta que para que as árvores produzam bons frutos elas têm de ser plantadas por outros e deixadas para quem está vindo pela floresta. Esse seria um dos motivos de suas constantes mudanças e perambulações. O cenário do poema é uma choupana abandonada, que mostra os indícios de quem esteve lá e ao partir deixou no entorno uma roça e um pomar semeados para os que estariam chegando pela floresta famintos e exaustos”.

Uma roça um pomar, semeados no início dos estudos sobre música, aos tenros 12 anos de idade. De frutos maduros e muitos, que se ofereceram mesmo a quem não sabe que os consumiu – das injustiças de fazer arte para quem não a venera. Das contadas vezes em que estive no modesto quarto de hotel tinha a sensação de farto alimento para quem chega. Tudo o que narrei acima eu soube depois de perguntar a Waltel se ainda compunha. Naturalmente tive de perguntar se ainda tocava, ao que se seguiram largos minutos de uma serenata particular que, saciada, levei comigo.

Infelizmente não conversamos mais e talvez essa trilha, de Nada esta fora do lugar, tenha sido das suas últimas composições na capital paranaense. A cidade passou os dias mais recentes – de lua cheia, entrada na quarto minguante – sob um veranico de dar gosto; veranico que apesar de esquentar os ossos perde para a carioquice que se avizinhava. Que ela lhe faça bem, maestro. Pelo meu lado, fico acompanhada do frio do inverno, que – pena – resolveu voltar.

17/07/2017

*MBAEVE NDAIPORI OIVAIVA: Nada está fora do lugar faz parte da série ‘Fruto estranho’, composta por performances que abrirão as principais mesas da Festa Literária Internacional de Paraty em 2017. A obra traz poesia e roteiro de Josely Vianna Baptista, música de Waltel Branco, direção e edição de Yasmin Thayná, arte visual de Francisco Faria, trabalho etnográfico de Mito Sequera, direção e edição musical de Kito Pereira e de Pedro Jerônimo Vaz de Faria; traduções de Chris Daniels (inglês), Cristino Bogado (guarani) e Reynaldo Jiménez (espanhol), e leituras de Josely, Daniels, Bogado e Jiménez.
Focado na questão ameríndia, inspirado nas migrações proféticas em busca da “Terra sem Mal” e pontuado pela menção ao etnocídio (particularmente dos Guarani), Nada está fora do lugar será exibido na FLIP em 27 de julho.

Silente som

No dia em que conheci o maestro ele acabava de tomar o café da manhã. Sobre a mesinha estreita, uma bandeja prateada na qual restavam duas pequenas cumbucas com manteiga e um molho vermelho que deveria ser ketchup, além da xícara de porcelana branca. Ao perceber a chegada de visitas abriu largo sorriso e apressou-se a reclamar que puxássemos assentos.

Poucos minutos depois, entre apresentações e pedaços de conversa, remexe documentos. Acomodado bem diante da porta de uma pequena sacada por onde entra a luz macia do outono, ele fala dos dias e dos afazeres recentes, dos planos mais adiante para a semana e então engata a contar sobre parcerias antigas e composições distantes. Tem caixas e pastas em torno de si. Delas saca papéis amarelados pelo tempo e eu miro pela objetiva o passear dos dedos e dos olhos por aquelas notas. Reconheço alguns dos nomes escritos no alto das páginas, trazem trechos à mente (apenas pudessem ouvi-los os pedestres que caminham metros abaixo, pelo petit pavê da capital…). Vê-lo tatear as provas materiais da sua obra é como assistir alguém que permanentemente se revisita, mergulha no passado para reganhar o fôlego do presente; tem 87.

Por detrás dos óculos também parece estar sempre em alguma procura, quem sabe dentro. Conta histórias a mim e ao meu cicerone, que também traz vidros diante dos olhos e ouve mais uma vez causos conhecidos e ri um sorriso refletido no outro. Corro vista por aquele mar de expressões e penso se ainda há tempo, mas não. Então digo que volto, pergunto se posso.

Diz-me que, sim, me esperava quinta e quinta lá estava, de calendário nas mãos:

– Ô, menina. Eu tava vendo a fase da lua. Nasci na quarto minguante, diz que é bom pra fazer as coisas.

Conversamos sobre o frio e o fazer, contou-me como escuta a música sem precisar ouvir, como às vezes sonha, que às vezes esquece. Pedi se tocava, pediu que alcançasse o violão e depois de dedilhar algo mais bonito do que a manhã azul que abraçava a cidade se queixou de tocar cedo. Disse que os dedos não respondem como devem, amortecidos pela noite de sono que acabara fazia pouco.

Agradeci por dar música ao dia, agradeceu-me a gentileza e eu fiquei a olhar para aquela coroa de grisalhos, imersa naquele ar de simplicidade que esconde tamanho gênio, pensando em como gastamos o corpo, no que deixaremos atrás quando deixarmos de ser e no que falta. Coloco a mochila nas costas com o compromisso de um novo retorno.

Passados alguns dias, hoje voltei. Anunciei-me na recepção como vira fazerem e apanhei o elevador. Ao abrir a porta fiz tocar a sineta, atada por dentro à maçaneta da porta (não sei se por gosto, distração ou necessidade), e deparei de imediato com a cadeira vazia. Ali estava sentado nos outros dois dias em que fui ter com ele. Na ausência atravessei com os olhos o quarto de paredes decoradas com fotos, recortes, pôsteres, memórias de si, e o encontrei na cama, ainda entregue ao descanso nesta segunda-feira de chuva que caía lá fora e dentro de mim.

Dormia muito reto sobre a cama com o cobertor puxado bem por sobre o rosto, como que mantendo distante o passar do dia, que já ia avançado quase virado em tarde.

Ao seu lado, por sobre as cobertas, encostado à parede, jazia o violão e fiquei a imaginar se ontem tocara, o que e – talvez – para quem. Só recuei por ter avistado, ali onde estava, o instrumento: decidi que era a única companhia necessária. Desci as escadas, pedi que seu Zé avisasse que passei e ganhei a calçada. Deixe que sonhe.

Curitiba, 05/06/2017

O primeiro dia

Ainda era cedo quando abriu os olhos. Ou era tarde. O relógio dizia ainda as seis horas de uma manhã cinzenta e o outono nascia. No ar saturado pelo fim sentia-se ainda o cheiro da garrafa de conhaque que voou de encontro à parede, escorreu maculando a tinta branca. Fê-lo lembrar das lágrimas raivosas e de como elas dissolviam a máscara preta, riscavam rios sobre as bochechas da moça que batera a porta atrás de si às duas horas da madrugada.

Espalhado pela parte que lhe pertencia na cama enquanto nela dormiam dois, ouvia os protestos vindos da sacada, o gato preso do lado de fora desde a noite anterior. Não se moveu. Melhor tivesse levado também o bicho; tomara não tenha lhe ocorrido catar os livros na estante, tem o Bukowski que ainda não terminei de ler. A filha da puta deve ter levado o Bukowski. Então estendeu o braço direito, atravessando-o pela metade vaga do colchão e entendeu que havia tempo ela não fazia falta. Além da caixa de concreto a vida transcorria como sempre, o som dos pneus sobre o asfalto, o elevador que subia ou descia, trazia, levava.

Estava cansado e era cedo. Desemaranhado da noite mal dormida puxou o corpo para o domingo que avançava. Não foi até o banheiro, que já não teria dependurada no registro do chuveiro uma peça de roupa íntima qualquer que ela insistia em abandonar para que secasse; não foi até a cozinha, onde a água não fervia no fogão. Era tarde. Na sala, desviou dos cacos de vidro, reparou que sobrava nada que lhe fosse alheio e teve pena. Desdobrou o jornal não lido do dia anterior. Com as folhas forradas de tipos embrulhou os pedaços da garrafa e então deixou o bichano entrar no apartamento; não se importou que lambesse os restos pegajosos da bebida perdida, afagou-lhe as costas e pensou em como ela se esticava arqueando o peito, no despertar sem perturbação dos dias inúteis. Não veria mais aquela ponte se formar, o vão aberto entre a cabeça, pendida para trás, e os quadris, tensionados contra o lençol.

Era um desperdício e um alento. Não veria, não enlaçaria mais, aquele vão. Outros sim. Pela porta aberta que dava para a varanda estreita entrava o frescor da ausência de sol, pelo cômodo pairava a estranha leveza das coisas que recém deixaram de ser.